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Tirei o silicone e foi uma das melhores coisas que já fiz por mim

por Nicole Vendramini outubro 07, 2020

Tirei o silicone e foi uma das melhores coisas que já fiz por mim

Por Nicole Vendramini

Há 3 anos eu tirei de vez minhas próteses de silicone. Até hoje me pergunto o que se passava pela minha cabeça quando decidi colocá-las em primeiro lugar e confesso que tenho dificuldade para chegar a uma conclusão: sigo sem ter uma resposta direta ou óbvia. E foi só depois de muita reflexão (e, convenhamos, terapia) que entendi que isso não tinha nada a ver com me sentir mais atraente ou sensual como muita gente pensa. O buraco era mais embaixo.⁣

Antes que surja qualquer dúvida: a cirurgia de retirada foi a melhor coisa que eu fiz. Só me arrependo de não ter feito antes (e de ter colocado as próteses, claro). Olhando pra trás, me espanto com o fato de considerarmos normal inserirmos dois grandes plásticos de origem duvidável dentro dos nossos corpos. Com como, em um belo dia qualquer, decidirmos provocar uma intervenção cirúrgica não necessária em organismos saudáveis e completamente normais para, de repente, “resolver” um trauma ou nos sentirmos mais “confiantes”.

SOBRE PADRÕES E O QUE ELES PROVOCAM NA NOSSA CABEÇA

Me machuca saber que, mesmo estando dentro do padrão estético (em resumo: branca e magra), ainda assim o caminho para a autoestima parecia estar por trás de um bisturi. E a gente sabe que esse labirinto mental não é exclusividade das cirurgias plásticas. Dietas, padrões de beleza em geral e até a indústria do autocuidado nos fazem relacionar diretamente nossa aparência ao nosso valor.

É verdade que o tamanho do meu sutiã teve um papel importante no meu processo de amadurecimento, neste caso profissional. Antes de colocar as próteses, eu me sentia inferior, menos capaz, uma eterna estagiária no ambiente de trabalho. Ter seios maiores me fez me sentir mais mulher (o que hoje já identifico como meu grande equívoco, uma verdade absorvida por anos e anos de globelezas admiradas sambando nos mais diversos contextos da minha vida – e sim, inclusive profissionais). Por um tempo, meu peito me fez mais potente, direta, até competente. E eu não estou dizendo que era discriminada no ambiente de trabalho por ter seios tímidos. Mas talvez sempre tenha me sentido pré-julgada pela aparência de menina e vi na cirurgia nada mais, nada menos, do que um atalho interno para me posicionar no mundo de uma outra forma.

Eu queria poder dizer que, portanto, descobri uma ferramenta para me ajudar em uma fase da minha vida. Que por mais que tenha sido um caminho meio torto, pelo menos me ajudou a passar por algo importante. Que tudo teve um final feliz. Mas não é o caso. A lua de mel durou pouco e logo as inseguranças voltaram vestidas com outras máscaras.

O que ninguém me contou é que uma cirurgia não é uma solução tão óbvia para problemas causados por uma cultura machista, que controlou minha opinião sobre o meu próprio corpo por tanto tempo. E o bom e velho “será que eu sou mesmo boa nisso?” voltou em forma de síndrome de impostora e outras crises mais. O que me entristece é ter precisado disso para atravessar obstáculos. Ter corrido tantos (!) riscos e ainda assim não curar a insegurança que existia dentro de mim, porque sim, ela volta quando tapamos o sol com a peneira, quando não tratamos a causa-raiz do problema.

Eu poderia dizer que as redes sociais, com seus filtros de glitter, imagens photoshopadas e abdomes inalcançáveis, também são culpadas. Não foi o meu caso: uma das coisas que tenho mais clareza sobre esse processo todo é que ter acesso a perfis infinitos do Instagram – para muito além da estética global dos anos 2000 – foi fundamental. No mundo das popozudas e fruto de uma infância regada a "É o Tchan", meu corpo magro e não voluptuoso não representava nada: uma menina transparente e descartável. Eu me enxerguei em padrões e estereótipos gringos e essas referências me mostraram um novo caminho. Eu passei, em algum nível, a me aceitar.

QUANDO DECIDI RETIRAR AS PRÓTESES

No meu caso, as próteses não tinham nada a ver com sexualidade ou me sentir mais atraente para o sexo oposto. Depois de um tempo, inclusive, isso justo passou a ser parte do problema: passei anos escondendo o colo e calculando milimetricamente tamanhos de biquíni. Nem mesmo um pingo de vulgaridade poderia ser visto como consequência da minha decisão, eu não me perdoaria. Como uma mulher profissional, séria e comprometida, ter feito tamanho esforço para ser fisicamente atraente seria uma mancha na minha história. Um novo ciclo tóxico se iniciava.

Hoje enxergo que este ponto também é fruto de uma sociedade patriarcal que, em geral, não nos permite, como mulheres, exercemos nossa sexualidade fora dos mecanismos de controle masculinos. Porém, era também um incômodo físico, real. Eu já não me sentia eu mesma. Tinha dentro de mim dois objetos pendurados em um corpo que só queria liberdade, apenas ser como se é. Também foi nessa época que o projeto inicial da Holistix começou a tomar forma, assim como meus estudos no universo da saúde holística e natural. Tudo isso se tornou um incômodo (com misto de culpa) perturbador.

Eu não via solução: o melhor que os médicos poderiam me propor era a troca, antes do tempo, por uma prótese menor. E eu só pensava em quantas vezes teria que entrar uma sala de cirurgia ao longo da vida para fazer a manutenção dessa minha primeira escolha. Até que um dia uma amiga comentou que conhecia uma pessoa que havia retirado as próteses completamente, o que me pareceu corajoso e, ao mesmo tempo, arriscado: como ficaria uma pele esticada e costurada por meia década? É possível resgatar algo do que meu corpo era antes?

O RESULTADO

Devo dizer que tive sorte: esteticamente nunca estive mais feliz, e meus seios hoje estão muito parecidos com o que eram antes. Como não tive filhos e tenho uma pele de fácil cicatrização, tudo correu muito bem. Mas o processo não foi tão tranquilo: ouvi médicos dizendo que eu “não me sentiria bem com meus seios naturais” e que “não podiam de forma alguma garantir um bom resultado”. Até as mulheres que cruzei nesses consultórios davam risos tímidos de estranhamento quando entendiam do que se tratava o procedimento. E quer saber? Hoje eu tenho é orgulho da coragem de todas que passaram por isso.

Eu sempre reforço que tenho privilégios incalculáveis. Tive acesso a médicos qualificados e no momento das duas cirurgias tinham empregos estáveis que permitiram que eu me organizasse financeiramente para isso. Imaginem se eu não tivesse condições para fazer uma nova cirurgia? Ou se eu tivesse tido um problema no processo e não tivesse uma rede de apoio para me ajudar? Pois é o que acontece com muita gente. Mulheres que passam por complicações, que tem suas próteses rompidas ou rejeitadas pelo próprio corpo - sim, é mais comum do que você pensa. Mulheres que talvez tenham investido anos de economias em algo que pode (mesmo) atrapalhar e muito suas vidas.

Hoje na Holistix me dedico a entender como podemos ser mais saudáveis e ter rotinas que funcionam para cada uma de nós. Saúde vai muito além do que o médico tem pra nos dizer, acredite. Minha história é apenas uma história, mas foi um depoimento como esse o que me fez ver uma luz no fim do túnel e ter coragem para olhar para mim mesma com outros olhos: mais atentos, presentes e gentis. Hoje sei que esse meu caminho tem tudo a ver com me aceitar perfeita mesmo fora dos padrões ou do que é esperado de mim. Isso também é saúde. Ou pelo menos uma importante premissa para que ela faça parte da minha vida.