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Para quem perdeu alguém: como meu corpo sofreu com o luto e o que fiz para me recuperar

por Nathalia Simoes setembro 02, 2020

Para quem perdeu alguém: como meu corpo sofreu com o luto e o que fiz para me recuperar

Na foto, Anna e Nat

Por Nathalia Simões

A Anna era aquela amiga que mesmo longe e estando em outro continente, foi muito presente na minha vida. A gente quase nunca se falava por telefone, pois o fuso horário dificultava um pouco – ela morava em Viena, na Áustria. Mas éramos capazes de trocar áudios de 15 minutos no Whatsapp. A relação com ela foi o mais próximo que eu cheguei de uma terapia em anos.

Trocávamos alegrias e angústias por meio de longas conversas que, para muitos, poderiam ser um tédio. Pra nós, eram como se fossem cartas. Me lembravam muito o efeito do “morning pages” que comentamos tanto no workshop "Escrita para lidar com o estresse e a ansiedade", da Olívia Nicoletti. Eu brincava que nossos áudios pareciam como aquelas vozes dos narradores de filmes de época lendo cartas entre confidentes.

Conheci a Anna em 2014, quando estava fazendo um MBA em Barcelona, na Espanha. Ela sempre me ajudava, colocava meus dramas em perspectiva e não deixava a peteca cair. Me incentivava nas minhas loucuras empreendedoras e até topou fazer uma “despedida de não-mãe” em Roma, quando eu estava grávida de 6 meses da Carlota. Além disso, também fez um bate e volta da Áustria até o Rio de Janeiro pra ir ao meu casamento.

Logo depois da nossa viagem a Roma, ela me contou que estava com câncer, mas como boa otimista, acreditava que em alguns meses de quimioterapia poderia se curar. Anna tinha acabado de começar uma relação com o Lukas e logo depois se casou – no meio do tratamento, com peruca e tudo. Estava linda como sempre!

Nossa relação era direta e sem nenhuma interferência. Não tínhamos nenhum amigo próximo em comum. Nos últimos 2 anos, sofri com a possibilidade de que um dia a Anna poderia parar de me responder no Whatsapp. Como eu saberia notícias? Não queria pedir o número da mãe dela pra não insinuar que eu estava aterrorizada com a sua doença. Talvez eu tenha sido infantil porque, infelizmente, o dia em que parei de receber respostas chegou.

Anna parou de me responder justo quando mandei a foto da Cacau, minha segunda filha, que nasceu em maio deste ano – coloquei na legenda “meet Claudia” [conheça Claudia]. Passei semanas ligando e nada, escrevi várias vezes pedindo sinal de vida e nada, entrei nas redes sociais e nada. Até que um dia recebi uma mensagem do celular dela: “Vi que você está tentando ligar, infelizmente a Anna faleceu no dia 27 de maio, ass: Anna (mãe)".

Essas palavras me caíram como uma bomba. Me dei conta que enquanto eu estava trazendo vida ao mundo, ela estava se despedindo, entrando em coma. Chorei por 24 horas seguidas sem parar. Chorei até dormindo, meus olhos pareciam uma torneira aberta. Mas eu não podia me dar ao luxo de sofrer por muito tempo. Estava com um bebê de dois meses em casa e meu leite ficou a ponto de secar. Uma “pequena” resposta do meu corpo ao choque emocional.

Parei pra pensar: o que a Anna acharia disso? Ela certamente ficaria bem chateada comigo.... E foi nisso que me agarrei. Anna não iria aceitar que a morte dela afetasse a minha amamentação, a minha saúde e a das minhas filhas. Anna gostaria que eu vivesse por ela e que equilibrasse minha vida profissional e a família (ela sempre batia nessa tecla!). Foi o que fiz, fui pra praia e fiquei exclusivamente com Carlota e Cacau por alguns dias. Meu leite voltou. Acredito ter encontrado um resquício de positividade em meio a um cenário tão duro – é o que chamam de inteligência emocional.

Meu objetivo com esse texto é tentar trazer um pouco de luz para esses dias tão tenebrosos em que estamos vivendo. Todas as semanas recebo notícias de pessoas perdendo entes queridos ou de tragédias como a explosão de Beirute, no Líbano. Além de ficarmos tristes e sofrermos na alma, essa avalanche de notícias ruins pode adoecer o corpo. Tenhamos mais empatia, ajudemos ao próximo, coloquemos os acontecimentos em perspectivas, honremos nossos mortos vivendo o que eles já não podem viver. Faz bem à saúde, e com saúde podemos reconstruir o tudo que desmoronou. Cuidem-se.