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Café: vilão ou mocinho?

por Nicole Vendramini setembro 14, 2020

Café: vilão ou mocinho?

Por Nicole Vendramini

Eu tenho uma relação de amor e ódio com o café. Eu sei que a gente não pensa muito sobre ele (automático que fala?) e talvez isso aconteça simplesmente porque não conseguimos – ou queremos – imaginar nossas vidas sem ele. E aí eu me pergunto: como é que esse grãozinho dominou tanto as nossas vidas? É simples: ele tem um efeito ma-ra-vi-lho-so. Não só nos sentimos mais dispostos, mas também mais felizes – literalmente. E, pra mim, isso é mais um problema do que uma boa notícia.

Que o café nos faz sentir bem, está cientificamente comprovado. O que acontece é que quando a cafeína entra no nosso corpo, ela bloqueia os receptores que costumam detectar o neuro-químico responsável por nos fazer sentir sono e os sintomas do cansaço. Quando isso acontece, seu corpo não tem outra escolha a não ser liberar seus próprios estimulantes: dopamina e glutamato, os dois químicos responsáveis pela experiência de se sentir bem.

E aí você vai me dizer: mas café é natural e todo esse processo também é natural, certo? Depende do que chamamos de natural. Ele vem da natureza? Sim. O estímulo que ele provoca é algo que seu corpo gostaria de fazer naturalmente naquele momento sem essa substância? Não. No mundo em que vivemos hoje, com tantos estímulos externos, substâncias naturais concentradas (ou tratadas de uma maneira que não acontece realmente na natureza), tecnologia, luzes artificiais e excesso de informação; o natural passou a ser muito, muito relativo.

Vale dizer que o café sempre fez e segue fazendo parte da minha vida. O cheiro me remete à infância instantaneamente. E olha que eu só dei o primeiro gole quando comecei a trabalhar horas e horas seguidas na frente de uma tela em um cubículo cinza (apesar de todo o privilégio que essa oportunidade carrega). Antes disso, a combinação de açúcar era minha maior aliada: minhas madrugadas de estudo eram regadas a barras de chocolate industrializado, mas logo percebi o quão potente, socialmente e fisicamente, era essa bebida. Pegar um café era a única pausa possível no meio do expediente. Tomá-lo era a única maneira de me conectar pessoalmente com meus colegas de trabalho e me manter de pé para encarar o dia que seguia.

A consequência disso foi grave pra mim. A ansiedade e a necessidade de produzir a qualquer custo me fez perder o controle da quantidade que ingeria. Eu perdi a sensibilidade do meu nível de cansaço e já não sabia realmente o que era disposição física ou excitação por uma substância química mexendo com o meu cérebro. Eu entrei em um estado de fadiga física e mental e só me dei conta quando fui instruída a (e finalmente pude) realmente desacelerar.

Eu morei na Espanha por 2 anos e, quando cheguei, ainda trabalhava para uma empresa no Brasil. Por conta do fuso, eu podia começar a trabalhar a tarde e, em geral, conseguia desconectar antes das 20h. Foi um momento mais livre, em que passei por uma transição de carreira importante e fui desacelerando aos poucos antes de abraçar um novo desafio. E, pela ruptura na rotina causada pela mudança brusca de país, também comecei a reparar mais no meu corpo: antes de tomar o café matinal, nem eu mesma aguentava meu humor. Se eu tomasse café à tarde, não conseguia dormir antes das 2 da manhã. Se eu trocasse uma xícara do líquido por um chá, prática comum onde eu vivia, meus dias eram MUITO menos estressantes e as crises de ansiedade bem menos frequentes.

Estudando Ayurveda, entrando em contato com o que a ciência já descobriu sobre a atuação do café no nosso corpo e depois de ser instruída a (nunca mais, no caso) ingerir a substância, decidi dar uma pausa. E o que veio a seguir não foi nada confortável: eu não conseguia dormir menos de 10 (!) horas por dia. O cansaço era tanto que eu simplesmente não conseguia me concentrar. Ficar no sofá 24 horas não era o suficiente, já que qualquer distração me levava ao sono novamente. E depois de muito investigar a situação – seria falta de nutrientes? Depressão? A boa e velha preguiça? – descobri que eu estava simplesmente... exausta.

Foi dificílimo acatar o veredicto e abraçar o que viria. Segurei as pontas e, durante três meses, sofri com um corpo que parecia não responder às minhas ambições e necessidades da vida real. Porém, considerando que esse era o resultado de pelo menos 10 anos de um acelerar eterno, ficar cansada e me sentir letárgica por apenas algumas semanas na verdade foi uma grande sorte.

Passado esse período, muita coisa mudou. Meu nível de energia não voltou a ser a "explosão" – que era a sensação de tomar uma xícara cheia de café, mas eu justo entendi que, de repente, aquele pico estratosférico não era tão natural assim. Eu percebi que sentir cansaço não é fraqueza, muito menos um problema. É simplesmente meu corpo, que aliás, faz um trabalho constante para me fazer estar sempre em equilíbrio, me dizendo: "para que você seja a melhor versão de você hoje, amanhã e sempre, agora é hora de descansar".

Logo aprendi que ciências tradicionais já falavam sobre isso há milhares de anos. Na visão da medicina chinesa, a energia que sentimos depois de tomar a bebida na verdade é proveniente de um “estoque “ de energia ancestral, armazenada e protegida para para momentos de perigo, de extrema necessidade. E se a gente quer chamar as nossas manhãs de quarta-feira com reuniões estressantes de "emergências", tá tudo bem. Mas tem algo estranho aí, não tem?

Nos últimos meses, tenho tomado um café de ótima qualidade em uma versão super fraca, com aspecto de chá, e tem funcionado bem pra mim. Quando percebo que a ansiedade está batendo mais forte, reduzo. Quando a vida está exigindo demais de mim, corto. Quando estou bem ou precisando de uma forcinha, sigo. O que me guia é um lembrete simples: nada é preto no branco e o que te fez muito bem em algum momento, pode fazer um estrago daqueles hoje – e vice-versa. Meu lema da vez é “devagar e sempre”. E ele nunca fez tanto sentido.